Delicadeza é o verdadeiro nome deste disco
por Jorge LZ

o muitas as sensações que o disco Pra Viagem provoca.
Todas elas muito boas.
Mas o que mais impressiona é a delicadeza do universo criado por Kika.
Por ele somos abraçados e dele não temos vontade de sair.
O silêncio é valorizado e, combinado a um tempo próprio que flui naturalmente, faz com que a audição das oito faixas do disco se transforme numa experiência repleta de boas surpresas.
Seja nas belas letras intimistas ou nos arranjos cuidadosamente elaborados, apesar de sentirmos uma certa familiaridade, nada ali é óbvio, muito pelo contrário!
A cada "esquina" dobrada no andamento das canções nos deparamos com paisagens sonoras oníricas construídas com o mais puro bom gosto e executadas com extrema precisão.
Certamente todo esse encantamento se dá pelo fato de Kika saber o que quer mesmo que sua cabeça flutue como é bem descrito na sublime e beatlemaníaca Pulso:
".. o chão em cada pé e a cabeça no espaço sonhando, fazendo o que faço..."

Extremamente sofisticado e ao mesmo tempo muito simples, o disco é de uma beleza brutal.
Um aroma de Tropicália, Beatles e Jamaica paira no ar sem que a originalidade seja comprometida.

Citando mais uma música do disco, a derradeira Sem Saber:
“... muitos querem ser iguais, alguns querem ser algo mais...”.
Kika consegue ser algo mais sendo ela mesma.




Cinema, 360 graus, 3d, HD. 8.1
por Bruno Morais

         Como num sonho, Kika nos convida para uma Aventura Marítima, vestida de noiva, cantando para  o mar e ao pé do ouvido. Com os olhos, ela aponta para o mergulho e nos conduz  feito um feitiço, como se estivéssemos num transe. Na garupa de sua jangada – tapete-voador nos mostra como desvenda-se, véu a véu, a verdadeira profundidade de cada simples imagem, suas cores e seus mistérios, seu prisma.  O tráfego marinho intenso é capturado por tanta leveza, água mansa e clara, mansidão. 
         Kika Navegante, segundo álbum da cantora, compositora e musicista Kika é um carinho, um alento, um respiro, uma rede de sonhos em oito mergulhos, oito paisagens, oito visitas em uma viagem de tirar o fôlego. Uma suíte oceânica. Como se Kika estivesse nos oferecendo, em meio a todo esse caos, um momento de abstração profunda, a chance de escapar com ela para outros cenários, mais arejados e paradisíacos. Cada canção é uma nova paisagem,  uma visita inusitada e um novo jeito de aterrissar e decolar novamente. 
         Em Flor de maracujá, de João  Donato, Kika é um pássaro-drone em voos rasantes pela ilha. Uma festa em versão deliciosamente descontruída por Kika, sua banda e seu fiel tripulante, Victor Rice, que assina com ela todo o roteiro dessa viagem sensacional. A recriação da faixa é pura magia jamaicana, um acorde, uma sereia e a orla toda vai dançar. O luau em brasa, o baile está lindo, os passos, os vestidos, o molejo do mar, as crianças correndo pela areia e comadre Kika nos fala dos devaneios noturnos, brinca consigo mesma, dança com as sombras, dança sorrindo. De noite desconfia e o baile segue.
         Por aí, quando, de repente, toca aquela lenta, momento de decolagem, o navio levanta voo. Kika é uma Fênix e nos conduz para mais um voo livre pelas cidades invisíveis, o rosto colado no par e a cabeça lá no alto, serena canção “para quem quer se soltar”. 
         Vestida da armadura e munida da carta de OSHO nº33, pausa para uma linda declaração de amor à efemeridade das coisas, a importância sagrada dos momentos, do tempo que temos, a celebração de estar inteiro em tempo real aqui e agora, sem cruzar a linha do trem, vivendo o presente, apenas ser e estar. Armour.
         Desse momento sagrado partimos direto para a Janela da alma, de onde observamos, imaginamos, criamos histórias fictícias para todos que passam e para nós mesmos, sonhando acordada, “da janela, o caminho de cada um, na cabeça dela é caminho só”. 
         Apagam-se as luzes, silêncio, acordes surgem na penumbra da floresta, duas ninfas, duas índias, um fado, o canto acestral das sereias ecoando mata afora, uma linda canção de amor e de despedida Pra ficar na tua vida. “Ai, vontade de ficar mas tendo que embora”.
         O dia vai amanhecendo novamente e a certeza no coração de que não queremos ir embora, todos juntos e felizes, aquela volta pra casa depois de um jornada inesquecível, a vida. Ah, Se você soubesse?, como contar uma história e traduzir em palavras tudo aquilo que sempre foi só sentir? “E ficamos loucos pela travessia”. O melhor de tudo é que está tudo registrado, os sonhos todos que se transformam em outros a cada audição, tudo filmado em sensações, gravado em disco voador, é só dar o play novamente, ufa!