Navegante





Cinema, 360 graus, 3d, HD. 8.1
por Bruno Morais

         Como num sonho, Kika nos convida para uma Aventura Marítima, vestida de noiva, cantando para  o mar e ao pé do ouvido. Com os olhos, ela aponta para o mergulho e nos conduz  feito um feitiço, como se estivéssemos num transe. Na garupa de sua jangada – tapete-voador nos mostra como desvenda-se, véu a véu, a verdadeira profundidade de cada simples imagem, suas cores e seus mistérios, seu prisma.  O tráfego marinho intenso é capturado por tanta leveza, água mansa e clara, mansidão. 
         Kika Navegante, segundo álbum da cantora, compositora e musicista Kika é um carinho, um alento, um respiro, uma rede de sonhos em oito mergulhos, oito paisagens, oito visitas em uma viagem de tirar o fôlego. Uma suíte oceânica. Como se Kika estivesse nos oferecendo, em meio a todo esse caos, um momento de abstração profunda, a chance de escapar com ela para outros cenários, mais arejados e paradisíacos. Cada canção é uma nova paisagem,  uma visita inusitada e um novo jeito de aterrissar e decolar novamente. 
         Em Flor de maracujá, de João  Donato, Kika é um pássaro-drone em voos rasantes pela ilha. Uma festa em versão deliciosamente descontruída por Kika, sua banda e seu fiel tripulante, Victor Rice, que assina com ela todo o roteiro dessa viagem sensacional. A recriação da faixa é pura magia jamaicana, um acorde, uma sereia e a orla toda vai dançar. O luau em brasa, o baile está lindo, os passos, os vestidos, o molejo do mar, as crianças correndo pela areia e comadre Kika nos fala dos devaneios noturnos, brinca consigo mesma, dança com as sombras, dança sorrindo. De noite desconfia e o baile segue.
         Por aí, quando, de repente, toca aquela lenta, momento de decolagem, o navio levanta voo. Kika é uma Fênix e nos conduz para mais um voo livre pelas cidades invisíveis, o rosto colado no par e a cabeça lá no alto, serena canção “para quem quer se soltar”. 
         Vestida da armadura e munida da carta de OSHO nº33, pausa para uma linda declaração de amor à efemeridade das coisas, a importância sagrada dos momentos, do tempo que temos, a celebração de estar inteiro em tempo real aqui e agora, sem cruzar a linha do trem, vivendo o presente, apenas ser e estar. Armour.
         Desse momento sagrado partimos direto para a Janela da alma, de onde observamos, imaginamos, criamos histórias fictícias para todos que passam e para nós mesmos, sonhando acordada, “da janela, o caminho de cada um, na cabeça dela é caminho só”. 
         Apagam-se as luzes, silêncio, acordes surgem na penumbra da floresta, duas ninfas, duas índias, um fado, o canto acestral das sereias ecoando mata afora, uma linda canção de amor e de despedida Pra ficar na tua vida. “Ai, vontade de ficar mas tendo que embora”.
         O dia vai amanhecendo novamente e a certeza no coração de que não queremos ir embora, todos juntos e felizes, aquela volta pra casa depois de um jornada inesquecível, a vida. Ah, Se você soubesse?, como contar uma história e traduzir em palavras tudo aquilo que sempre foi só sentir? “E ficamos loucos pela travessia”. O melhor de tudo é que está tudo registrado, os sonhos todos que se transformam em outros a cada audição, tudo filmado em sensações, gravado em disco voador, é só dar o play novamente, ufa!